Nos últimos cinco anos, valor da locação subiu 443% mais que o salário médio no Rio.
RIO – Sabe aquela premissa de que, num orçamento saudável, os gastos com aluguel devem representar 30% da renda doméstica? Pois essa despesa já está consumindo de 40% a 50% da receita familiar do carioca, em mais uma consequência do recente boom do mercado imobiliário da cidade. Enquanto os aluguéis no Rio, segundo o índice FipeZap, subiram 117,39% de maio de 2009 a abril último, o salário médio do trabalhador com carteira assinada do setor privado registrou, no período, alta de 21,61%, segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE — a diferença é de 443%.
Com isso, as administradoras de imóveis admitem: em alguns casos, é preciso flexibilizar as exigências. E já vêm aceitado inquilinos com renda até 2,5 vezes o valor da locação, o equivalente a 40%, em vez de pedir uma renda três vezes superior ao valor do aluguel, como o tradicionalmente praticado. É verdade que os preços, inclusive do aluguel, vêm se estabilizando nos últimos meses, sendo que em alguns bairros da Zona Sul já houve pequenas quedas. E que até a temporada para a Copa do Mundo foi afetada com reduções entre 10% e 20% dos valores, já que os proprietários tinham exagerado nas diárias. Mas, para quem precisa pagar aluguel mensal, a realidade anda apertada.
— Quanto maior a renda do locatário, maior a segurança do proprietário, claro. Mas, se é um apartamento difícil de alugar, é preciso ceder um pouco. Sempre analisando a situação financeira do inquilino — enfatiza Amauri Soares, gerente de locação da administradora Cipa, lembrando, contudo, que essa análise não é repetida na renovação do contrato.
Mas, garantem as imobiliárias, o risco é sempre calculado na assinatura do contrato.
— Se a situação patrimonial do locatário for muito boa e a garantia apresentada trouxer segurança ao locador, é possível aceitar um inquilino que gaste perto de 50% com aluguel — exemplifica Giovane Oliveira, gerente de locações de outra administradora, a Apsa.
A pesquisadora Vanuza Braga, por exemplo, gasta cerca de 45% do que ganha com aluguel e condomínio. Assim mesmo, porque divide o apartamento de dois quartos com uma amiga.
— Praticamente anulei minha vida social nos últimos anos. O que não gasto com aluguel, vai para alimentação, que também está muito cara no Rio. Tenho que escolher o que vou fazer, porque até a cervejinha no boteco está cara — constata Vanuza, mineira que mora no Rio desde 2008.
Quando chegou à cidade, pouco antes do boom imobiliário, Vanuza foi morar num apartamento também de dois quartos em Santa Teresa, que custava menos da metade do que o atual no mesmo bairro. Desde então, já se mudou duas vezes por conta dos sucessivos pedidos de aumento, em taxas muito acima de índices como IGP-M ou INCC. No último, chegou a aceitar reajuste de 40%.
— Um ano depois, o dono quis novo aumento, mas aí o preço ficaria muito longe do que o apartamento valia.
Sem dúvida, a saída, nos últimos anos tem sido mudar de bairro ou rever o orçamento doméstico e se adaptar à realidade.
— O único jeito é mudar seus hábitos, cortar ou reduzir o que for supérfluo para reequilibrar o orçamento e manter o controle dos gastos para evitar endividamentos e, de preferência, manter uma reserva financeira para momentos de crise como doença na família ou desemprego — ensina o economista Gilberto Braga.
Foi assim na família de Carolina Vares. Depois de um reajuste de 75% no aluguel, foi preciso colocar todas as contas na ponta do lápis. Almoços em família passaram a ser em casa, com ela ou o marido cozinhando, e gastos com diarista foram revistos. Depois de novo pedido de reajuste, a família acabou se mudando para um imóvel menor, embora tenha continuado em Copacabana, onde já morava. Agora, o casal gasta cerca de 40% de sua renda com o aluguel. Mas até encontrar outro imóvel foi difícil:
— Procuramos muito, mas sempre esbarramos na problemática burocrática, já que não temos fiador e o seguro fiança é caro.
De fato, vem crescendo o uso de garantias alternativas como o título de capitalização, por exemplo. Nessa modalidade, o locatário faz um título vinculado à locação que, em geral, custa o equivalente a 12 meses de aluguel. Se o inquilino deixar de pagar, o proprietário pode entrar com ação pedindo despejo e o resgate do título em seu favor. Se, ao fim do contrato, não houver problemas, o locatário pega o dinheiro de volta corrigido. Embora, seja caro para ele, esse tipo de garantia dispensa a comprovação de renda e, por isso, acaba sendo solução para quem não ganha três vezes mais do que gasta com aluguel — só é bom lembrar que, como investimento, esse é um produto de baixíssimo retorno.
— Há dez anos, o fiador representava uns 90% dos contratos. Hoje, fica em torno dos 60% por conta do crescimento das outras modalidades de garantia. Embora todas tenham vantagens e desvantagens — avalia Antonio Paulo Monnerat, vice-presidente do Secovi-Rio de locações.
Esse peso crescente do aluguel no orçamento doméstico não é um privilégio carioca. Um terço dos nova-iorquinos gasta cerca de 50% dos seus ganhos com habitação. Uma realidade que já levou o prefeito da cidade a lançar um plano para aumentar o número de imóveis disponíveis para locação nos próximos dez anos.
Fonte: O Globo / Economia / Morar Bem / Karine Tavares
